terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Foliões se fantasiam com lama em Natal





























Consegue imaginar um cortejo de milhares de pessoas enlameadas da cabeça aos pés, entoando marchinhas de carnaval? Tente, porque é assim que desfila o Bloco Os Cão, de Natal.
Nada de máscaras, plumas ou abadás. O item essencial da fantasia do Bloco Os Cão é lama. Seguindo uma tradição que já dura algumas décadas, milhares de foliões tomam banho de lama para depois desfilarem nas ruas da capital potiguar.
A folia acontece em Redinha, a última praia urbana de Natal. Logo cedo, na manhã da terça de carnaval, os foliões se reúnem na praia da Redinha, para “vestirem” as fantasias.
- Às 8h, nos reunimos na praia e vamos até o mangue. Aí dependemos da maré, mas geralmente a gente dá sorte e dá para tomar o banho de lama bem cedo. Não tem organização não. Quem estiver lá participa – diz Joatan Lopes dos Santos, que participa do bloco desde os três anos de idade.



Quando todos estão “fantasiados”, o bloco sai pelo bairro, passando pela Avenida Central e indo até a praia. O desfile do termina em Redinha Nova, uma praia perto de Genipabu.
Acompanhados de uma banda de instrumentos de sopro e eventualmente de trios elétricos –, cantam marchinhas de carnaval. Um carnavalesco local chegou a gravar uma coletânea com todas as músicas cantadas pelo Bloco. “As Melhores do Carnaval de Redinha”.
Durante o desfile, é comum ver foliões enlameados dirigindo seus carros, como se estivesse tudo normal com seu vestuário…



Joatan dos Santos é filho de Zé Lambreta, a quem é atribuída a ideia pra lá de original de criar o bloco fantasiado de lama. Militar e pescador, Zé Lambreta, ou Cesário Lopes dos Santos, teria sido o primeiro e se melar de lama e desfilar.
- O bloco começou há mais de 75 anos. Meu pai e seus amigos pescadores estavam sem dinheiro, no último dia de carnaval. Estavam pensando como iam fazer para sair na folia. Até que ele deu uma saidinha e voltou todo melado. Os amigos gostaram da idéia e foram se melar também – conta Joatan.
Ao verem aquelas figuras totalmente cobertas pela lama, muitos habitantes de Redinha, começaram a gritar: “É os Cão, é os Cão!”.
- Você sabe que cão aí não quer dizer cachorro. Cão para o pessoal daqui também significa o diabo… - Conta Joatan.
De fato, em muitas regiões do nordeste, esta é uma das alcunhas do “Tinhoso”.



– Também, com toda aquela lama preta, a pessoa fica bem camuflada, a cabeça grudada igual um capacete… é o imaginário, né? - completa o filho de Zé Lambreta.
Desde muito pequeno, Joatan desfila n’Os Cão.
- Eu tinha três anos. Ia para o desfile dentro de uma rede de dormir, carregado por meu pai e os amigos dele – lembra.
Hoje com 35 anos, Joatan viu o bloco crescer e virar uma das maiores referências do carnaval de Natal. “Hoje o bloco deve ter umas 10 mil pessoas. Vem gente de tudo que é canto para conhecer”.



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